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terça-feira, 8 de julho de 2014

incolor ou the flying dream


Essencialmente, representava tudo que eu não precisava ter e ilogicamente tinha. Eram as olheiras pela manhã, o torpor diurno, os ápices de euforia e a posterior depressão visceral. Os dias contados e os que sequer notei passar, tudo arrastado e arremessado violentamente em algum lugar que nunca visitarei. Eu via minha vida toda passar ali, borrada, tingida com as cores que eu nunca gostei. Nada era parecido com o que eu esperava, nada era nem de longe a melhor parte da minha vida que pensei conseguir naquele instante, aquele instante. Quando as memórias ou as idealizações cessam e percebe que era aquele quadro que perseguia por toda a existência, como se não houvesse dia antes ou depois daquele momento. Como se todas as demais pessoas fossem desimportantes e dispensáveis. Analiticamente percebo que só eu fui dispensável a mim, foi muita perda por um rastro tão irreal.

imagem: richard wilkinson - the flying dream

domingo, 26 de maio de 2013

não-sutil

Eu tenho uma mente confusa, sempre tive. Minhas explanações mais lógicas soam inverossímeis ou humorísticas. Não me resta muito a não ser acompanhar o ritmo das risadas, mesmo que internamente haja um turbilhão incessante de pensamentos que insistem para se explicar ou contestar os desentendimentos. Não seria possível, minha sensibilidade soa a insensibilidade ou quase sempre não aparenta existir. Tudo um mais do mesmo, frases repetidas, pessoas similares que posteriormente destoam, um quase sempre... Poucas pessoas me enxergam além do que eu mesma posso ver devido à minha miopia existencial e fisiológica. Há pouco firmava a convicção de que pessoas míopes não são confiáveis, são distorcidas, tendem a distorcer; eu mesma enxerguei manchas por amargos e longos anos. São borrões que carrego na memória, ciente de que os quadros e linhas que defini nunca possuíram aquelas formas e contornos. Daí surge a angustia de saber ter vivido em um mundo que só eu havia criado e compreendido, surge uma solidão tardia e uma impressão de que todos os outros frames poderiam ter sido cortados, é uma ciência retesada e uma velhice precoce. Nem os abusos que sofri dos outros que não me viam doem mais que os abusos que me impus por não me ver. Sinto falta de um longo espelho no quarto, ele teria me feito bem. Eu não desejaria a você, que me compreende, um presente como o meu, uma felicidade desacreditada em decorrência de uma vida pretérita irreal e uma realização que sempre vou temer ser desvaliada. As frases cortadas e agressivas que nos cercam carregam um bem-querer inexplicável. A todo o tempo conto cegamente com a sua percepção das sutilezas e levezas; não se prenda aos borrões, aos "ous", às fúrias e às decepções súbitas. O marasmo acalenta melhor as almas como as nossas e o tédio nos é necessário, porque tem gente demais para comer nossos sonhos.

Imagem: Luke Chueh - Contact Lens

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

fixação

Esvai-se algo todas as vezes que engano.
Sei que não enganaria seus olhos.

Engana-me.
Diz que volta.
Sei que não, mas espero.
Talvez me agrade esperar.

Derrelição é amor, o único que entendo:
abandona-me todos os dias, porque um só já não me basta.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Estoca-me.

Com uma preguiça de melhorar...

I
Estoca-me.
Faz-me carne. Coma-me. Degusta-me. Usa-me. Descartável. Diz as ofensas de sempre e qualquer nova que possa me afundar em lagrimas. Hoje eu sou Dante e vou a todos os cantos em busca de uma salvação que nunca me permitirá. Eu serei nada se é isso que lhe falta, eu serei pouco se o muito não ocupa os ossos quebrados das nossas estruturas. Torna-me as vísceras desse amor, faz-me parte desse organismo que o que me resta lá fora já não me bombeia o sangue. Diz-me as verdades, se preferir, mesmo que eu prefira os sonhos, mesmo que seja para sonhar com muros ou murros, ambos indisfarçáveis.

II

Estoca-me.

Ao lado dos rotos e perecíveis. Guarda-me para amanha ou outro dia, para quando estiver cansado das outras bocas tão melhores que a minha. Eu resisto. Eu resigno. Mais do que ter, preciso querer. Preciso constar no seu dia mesmo como um incomodo, indesejável. Eu tenho desejo por nos dois.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector

Clarice, boa e clichê, como me tem parecido ser tudo:

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar..."

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

cria

Eu como carne suja
estraçalhada
estirada pelos chãos e ruas

Eu como nua
bocas rotas
corpos podres e ancas cruas

Eu me rendo
Eu me entendo
Eu me como.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

on the knees

Tinha algo de encantador no desespero em que ela buscava a sua boca. O ato humilhante e a rejeição tornavam a cena digna de ser relembrada e, naquele momento, eu nem me daria ao trabalho de achar aquilo tudo triste; era quase uma ciência de até onde uma pessoa pode chegar, eu tinha que me curvar pra ver, porque ela chegava baixo, o mais alto era ficar de joelhos e lhe prestar aquele pequeno favor.

Imagem: on the knees by olya fedorova.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Citrinos I.

Era dor. Dor. Era muita e corria violentamente de um lado para o outro da cabeça, com pontadas agudas e incisivas. Eram dezenas de facadas na cabeça. Quanta felicidade, meu Deus. Era quase entorpecente ter a cabeça arrancada e não conseguir pensar naquela. Ali era pior, eram batimentos fortes demais, era falta de ar, falta de paz, falta de orgulho e vergonha na cara. Era doença do mais alto grau de periculosidade. Foi avisada e reavisada várias vezes, riu porque quis, ignorou porque quis. Era achar demais, pensar que daquele mal não sofreria. Não era profano diagnosticar o amor como doença? Agora o tenha e agüente. Porque não há dinheiro que o valha, muito menos tratamento que o cure.

domingo, 25 de abril de 2010

empty.


Desenho antigo. Muito antigo mesmo.
E uma falta imensa do que falar.

Então para acompanhar o desenho sem legenda: O início de um post que nunca foi terminado, assim como o desenho que até hoje continua um rascunho.

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Fique claro:
Eu estou sorrindo pra não mandar você se foder.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

descartáveis e/ou recicláveis.

Todos os tipos que escolheu pra dormir
todos eles tiveram seu valor

Eram escolhidos e cortejados com uma dedicação admirável
E os beijos eram dedicados de uma forma sincera e única

Eram especiais e memoráveis,
não havia porque desconsiderar quem quer que fosse.

Só faltava lembrar dos nomes, dos rostos
ou de qualquer outra coisa que os humanizasse.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

antes do tédio, depois de bukowski

Falávamos de lirismo e nos fodíamos pelas costas. As bocetas que comemos não valiam metade das palavras que nos oferecemos. Nem posso dizer que houve traição, o que nos traiu mesmo foram as evidências, não se pode contar segredos de cama!

sábado, 1 de agosto de 2009

you might choose: fears or bricks?

O telhado às vezes está perto demais, sequer é preciso uma queda para haver a compressão. Aquele espaço tão amplo e aconchegante que me fez acreditar completamente no conforto que aqueles braços me ofertavam, aquilo era o meu único porto seguro. Todas as vilanias do mundo pareciam incapazes de atravessar aquelas portas. Lá era possível ver pés descalços atravessando saguões, rodopiando, enquanto alguém entoava alguma valsa. Era possível dançar sem dança, rir sem motivo, não havia preocupações a ter. O ar era leve e fresco, as pessoas felizes e completas. Os abalos existiam, mas não assustavam nenhum habitante.

Todos nós imaginamos que aquele mundo existiria para sempre, por isso não havia sequer o medo de que o tempo passasse e houvesse uma devastação a qualquer momento. Isso era aparentemente impossível: não se destrói o intocável. Nada nem ninguém atravessaria aquelas portas e janelas. Então houve o pior, algo tão inimaginável que até agora me perturba o acontecimento deste fato: nossa fortaleza roeu por dentro, as suas estruturas estavam comprometidas desde o início da construção. É impossível culpar alguém por isso, nem mesmo o destino poderia ser responsabilizado. A casa agüentou o quanto pôde, mas surgiram as rachaduras, e a queda de um ou outro azulejo, depois os danos se tornaram mais aparentes, o telhado que descia... ou diminuíamos para caber ali, ou saíamos antes de ver o melhor que havíamos tido completamente em ruínas. Fomos cada um para um lugar diferente, andamos perdidos por aí, separados e unidos pela lembrança daquela fortaleza de calma.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

les jours tristes

Eu penso sobre quem exigia perfeição.

Errar e admitir erros era a minha especialidade.
Eu sou tão errada quanto sempre pude ser: minha patologia.
Mas sempre me redimi em perdões claros e explicativos.

Eu me pergunto sobre qual era a sua especialidade.

resoluções

ponto vírgula ponto ponto vírgula.
ponto final.


Então vamos à beleza e à intensidade:
Sentia náuseas por te imaginar em outros braços. Hoje vejo o céu borrado, um laranja que atravessa o azul petróleo, violento e lindo. O que sofri naquele dia não foi nada. Não será nada. Eu sei voltar ao escuro e à claridade num espaço de tempo quase imperceptível. Sinto-me crescendo, estranhamente. Ouço “Back to Black” e imagino que não é para mim que a Amy canta. Não, baby, não mesmo. Hoje o dia foi leve e sorridente. So Who? Who is going back to Black? Eu prefiro pensar nas lindas e vibrantes flores que vi no jardim ali ao lado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

do indescritível

1. Os instantes são simples. Esse excesso de simplicidade em diversos momentos toma-me de angústia e de uma reviravolta física traduzida numa náusea constante. Essa limitação ao olhar o papel e não conseguir dizer mesmo com uma exatidão mínima o que deveria ser dito e nem mesmo fazer entender os sentidos, isto provoca angústia e a náusea, claro.

2. Seria exagerado classificar o que me ataca de demência? Porque sofro dessa deficiência racional e não enxergo nada que esteja a ponto de contê-la. É um cansaço de mim que transmito às outras pessoas, e quando me dou conta disso, a existência da demência me é dolorida e indiferente.

3. Gosto de chutar pedras e dizer-lhes que está tudo bem. Mesmo com a ausência das palavras que deveriam me aparecer. Digo-lhes da angústia e da náusea porque gostaria de dizer-lhes do resto que não se mostra em público, o resto não gosta da luz, nem dos palcos.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

da convicção e da desistência

eu dizia era do tempo:
que corria ao lado dele lá
e você nem percebia o alento de cá

eu reclamava era do mundo
o vendedor de intrigas
ali além, acima do curador de feridas

fui eu que comprei a minha vida
fui eu que escolhi estar perdida
no meio das tulipas e bebidas

eu exigi da moça uma atriz
eu quis pintar de anis
fui eu que estraguei tudo
e foi por pouco, foi por tão pouco
foi por um triz.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

ab initio

A infância era uma época relativamente fácil, mas bastante conflituosa. Era incompreensível em diversos momentos, agitada por vezes, e na grande maioria, extremamente solitária. Gosto de pensar na infância com um limite de até 6 anos. Depois disso já havia uma consciência quase sociável e uma vida ocupada por diversos personagens. Tão longe do mundo de fantasias que costumava visitar nos anos anteriores.

Era interessante cuidar das formigas, pensar na vida que os adultos levavam e no papel que ocupava em relação àquilo tudo. Lembro de crises existenciais de uma menininha curiosa e inconformada. Deuses, a vida era tão limitada, e eu queria tão mais. Então assistia TV, passeava pelo quarteirão... lia livros e pensava sobre eles: a história de um papagaio de pirata e de uma menininha que namorava no portão, eu não me sentia criança.

Isso me acompanha desde então, uma alma velha num corpo jovem que em diversos momentos me seduz, mas no fim a alma sempre reclama.

ps: fico imaginando como a babá deixava uma criança de 5 anos passear sozinha pelo quarteirão.
ps2: quem disse que não temos lembranças antes dos 5 anos?!
ps3: até que ponto nossa infância determina o adulto que nos tornamos?
ps4: gosto de post scriptum.

sábado, 2 de maio de 2009

índigo: as desiguais.

Éramos o tipo de canto e encantadoras. Foram poucas as pessoas que não levamos no papo; carisma, fácil de ser criado. O resto deixamos estar. Esperávamos que os outros cansassem com o tempo...
não cansaram e continuaram com os sorrisos assustadores, as histórias de conquistas, os copos erguidos orgulhosamente.
Aquilo nos entediou, bastava nos olhar para saber que éramos diferentes.
Apesar disso, eu ainda não entendo o que nos faz ter uma alma que reclama a todo instante, que vê defeitos e alegrias além do que os outros normalmente enxergam... é algo difícil de explicar.

Dulce Pontes - Canção do Mar

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

a fase da dor






Houve um tempo em que havia desistido de ter um blog, até, simplesmente, sentir vontade de voltar a ter. Durante o tempo de recessão literária, escrevia em um documento do Word, amontoava textos quando, e se, tivesse vontade.

Há alguns meses, quando reabri esse documento, possivelmente quando decidi voltar a escrever e publicar, percebi uma certa lógica na catarse, ciclos como o deste post. Decidi nomeá-los de forma óbvia, sem muita frescura. Essa é a fase da queda, da perda, da dor, como cada um preferir chamar.
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doeu-me intensamente
não ser mais nada.

não foi vazio como pensei que seria
o ato, de anular-me, perfurou-me:
dolorido e áspero.

e essa ausência sofrida
me incomoda mais
do que qualquer dor que me causara.
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Ele continuava sentado no mesmo banco. Imaginando o próximo passo. Alheio à realidade de que primeiro teria que se levantar, olhar para frente. Não podia definir como dor aquele sentimento. Era algo mais, era algo mais concreto. Algo que parecia correr pelas veias, pesado e cansativo. Sentia um cansaço na alma. Sentia vontade de virar pedra naquele banco e nunca mais avistar qualquer indício de vida e cotidiano. Queria virar cimento.
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Certo dia acordei e decidi de imediato que arrancaria aquele sentimento de mim. E cada esquecimento era como arrancar a carne junto. Queria explicar a intensidade desse sentimento. Como sentia um pedaço meu sendo arrancado, e a dor e a angústia que isso me trazia. É algo além das minhas capacidades. Eu queria morrer e não morria. É doloroso se sentir incapaz até de morrer. Então esperava que outras pessoas morressem e ninguém morria. Queria ter amnésia, não tive. E os nacos de carne ainda sendo levados. Era uma sensação estranha de quase vida. Havia um distanciamento entre mim e o mundo. As pessoas eram plásticas ou eu era. Alguém estava em um aquário. E ainda a carne dilacerada. Não foi uma boa época para viver.
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Não era dor o que buscava.
Esmagava-lhe o peito esperar.
Doía. Doía muito. Não lembrava que doía tanto.
E assim de súbito tivera a certeza
de que não era aquela dor o que procurava.
Queria a paz dos dias aparentemente vazios.
A calma das camas ocupadas por corpos cansados
Inertes por instantes glamorosos.
Buscava aqueles braços que lhe acalentariam.
Só isso.
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Arrancaram as lembranças
Esqueço-me aos poucos
do que
esqueci

E essa falta da sua parte
me apavora.

Onde foi que te
deixei
E onde foi que me perdi?

sábado, 8 de novembro de 2008

só pra constar.


Não ter medo:
O mar não se destrói
Com nenhuma tempestade.

(Guimarães Rosa)

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Não suporto amores escondidos
Desejos reprimidos
Fingimentos declarados
Acordos descumpridos
e falta de coragem.

Pois, esteja de sobreaviso
se teme ser do tipo dos vadios
descontrolados e alarmados:
Poupe-me os ouvidos.