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terça-feira, 18 de junho de 2013

passado.

Quando estou ao seu lado, não me reconheço, é como se fosse outra pessoa, um alguém único - eu me vejo de fora, como um terceiro corpo. Não sei se gosto dessa outra pessoa ou mesmo se o que ela ostenta é calma ou tristeza. Não sei dizer se o ar fica mais pesado ou sou eu que o peso. Não sei se isso é distorção ou conforto. Não sei sequer se me arrependo ou me encontro.

domingo, 26 de maio de 2013

não-sutil

Eu tenho uma mente confusa, sempre tive. Minhas explanações mais lógicas soam inverossímeis ou humorísticas. Não me resta muito a não ser acompanhar o ritmo das risadas, mesmo que internamente haja um turbilhão incessante de pensamentos que insistem para se explicar ou contestar os desentendimentos. Não seria possível, minha sensibilidade soa a insensibilidade ou quase sempre não aparenta existir. Tudo um mais do mesmo, frases repetidas, pessoas similares que posteriormente destoam, um quase sempre... Poucas pessoas me enxergam além do que eu mesma posso ver devido à minha miopia existencial e fisiológica. Há pouco firmava a convicção de que pessoas míopes não são confiáveis, são distorcidas, tendem a distorcer; eu mesma enxerguei manchas por amargos e longos anos. São borrões que carrego na memória, ciente de que os quadros e linhas que defini nunca possuíram aquelas formas e contornos. Daí surge a angustia de saber ter vivido em um mundo que só eu havia criado e compreendido, surge uma solidão tardia e uma impressão de que todos os outros frames poderiam ter sido cortados, é uma ciência retesada e uma velhice precoce. Nem os abusos que sofri dos outros que não me viam doem mais que os abusos que me impus por não me ver. Sinto falta de um longo espelho no quarto, ele teria me feito bem. Eu não desejaria a você, que me compreende, um presente como o meu, uma felicidade desacreditada em decorrência de uma vida pretérita irreal e uma realização que sempre vou temer ser desvaliada. As frases cortadas e agressivas que nos cercam carregam um bem-querer inexplicável. A todo o tempo conto cegamente com a sua percepção das sutilezas e levezas; não se prenda aos borrões, aos "ous", às fúrias e às decepções súbitas. O marasmo acalenta melhor as almas como as nossas e o tédio nos é necessário, porque tem gente demais para comer nossos sonhos.

Imagem: Luke Chueh - Contact Lens

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

a romântica sra. h


Trechos de Hilda Hilst do livro Cantares.










III
Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor.
...

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

IV
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
...
Isso sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Nunca Mais.

V
O Nunca Mais é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes.
De perpetuar a duração.

VII
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

o óbvio

desaprendi a arte da despedida, livrar-me das suas discussões é deixar uma grande parte dos meus dias sem uma terra certa, sem ter onde repousar os medos. e o que mais poderia ser dito ou reapresentado? o que mais não foi redito tantas vezes de tantas formas quanto poderíamos inventar do incompreensível? a compreensão é tão certa e fácil que assusta. não é que eu não queira você, sabe. é que eu não posso me querer ao seu lado. e eu quero. então, é isso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

fixação

Esvai-se algo todas as vezes que engano.
Sei que não enganaria seus olhos.

Engana-me.
Diz que volta.
Sei que não, mas espero.
Talvez me agrade esperar.

Derrelição é amor, o único que entendo:
abandona-me todos os dias, porque um só já não me basta.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

la contradiction

Nous avons passé chaque minute en essayant de nous convaincre qu'il est impossible d'être le remède et la maladie en même temps.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Lei do retorno.


Uma tentativa de assalto,
uma ameaça no trabalho
e um sonho com ex.

Ok. Já paguei os meus pecados...
O que mais poderia me desejar de mau?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

on the knees

Tinha algo de encantador no desespero em que ela buscava a sua boca. O ato humilhante e a rejeição tornavam a cena digna de ser relembrada e, naquele momento, eu nem me daria ao trabalho de achar aquilo tudo triste; era quase uma ciência de até onde uma pessoa pode chegar, eu tinha que me curvar pra ver, porque ela chegava baixo, o mais alto era ficar de joelhos e lhe prestar aquele pequeno favor.

Imagem: on the knees by olya fedorova.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

sem flores e w3 sul.










Se continuar nesse ritmo, o blog passa de textos a desenhos...





Texto antigo:

Odeio a sensação de santidade que sua presença me impõe, odeio. Com as outras era inatingível. Nunca reclamei por elas e havia uma sublimação em ver aqueles choros cheios de culpa. Elas assumiam a culpa por não ter dado certo e eu parecia boa. Só havia bondade, ninguém era ruim na minha concepção. Eu não havia feito mal algum a elas e elas eram vítimas, não eram pessoas ruins.

Sinceramente, sentia-me extremamente confortável com essa aura instransponível. Então vem e me faz parecer uma santa. Um desperdício. Era cafajeste, descompromissada e agora estou presa diante da sua liberdade tão leve nos atos. Não consigo acompanhar, fico idiota querendo acompanhar, mas nunca me fez promessas e se deita com tantos outros quanto possa ter. Eu, absorta, dedico-me exclusivamente, passo a não desejar outras bocas, nem admito outros toques, só para não manchar vadiamente o amor que te dedico.

Estou destruída, escorraçada por sua indiferença, e continua sua. Nunca me mandou embora, mas nunca pediu para que ficasse... morro por me imaginar tão vítima e tão boa diante da sua indiferença acalentada em outros braços. Sofrida e entregue numa santidade absorta por pensamentos trágicos: uma doença fatal, um suicídio, tudo culpa sua. Perderia aquele ar sublime que tem nos meus pensamentos, aquela cara impassível que imagino em seu rosto enquanto choro desesperadamente. Poderia se sentir ruim por não me amar, poderia sentir minha falta. Então eu te trairia. Trairia com 28 outras mulheres por causa da dor que me causou. Seria sem sofrimentos causados.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

as putas é que sabem amar.

Toda puta ama. É como uma ciência que nós, que estamos fora daquilo, somos idiotas demais pra compreender. O fato é que elas amam e com uma devoção e resignação invejáveis. Cada beijo que dão valem por 10 de uma moça direita. É muita entrega, demais pra um ser só. Se nascesse mulher, nasceria puta, desde o berço, que era pra não perder tempo com moralismos impregnados de nada. Daria desde cedo, desde sempre, e não falo de “dar”, de boceta, de sexo; foda qualquer um tem. Falo de entrega, é bem mais que trepar, é saber ouvir quem não deveria, rir sem querer, e ainda ver prazer nisso tudo. Nasceria assim, lançada ao mundo e gozando prazer onde não há e nunca vai haver.

imagem: senhoras de avignon - picasso

quinta-feira, 9 de julho de 2009

les jours tristes

Eu penso sobre quem exigia perfeição.

Errar e admitir erros era a minha especialidade.
Eu sou tão errada quanto sempre pude ser: minha patologia.
Mas sempre me redimi em perdões claros e explicativos.

Eu me pergunto sobre qual era a sua especialidade.

resoluções

ponto vírgula ponto ponto vírgula.
ponto final.


Então vamos à beleza e à intensidade:
Sentia náuseas por te imaginar em outros braços. Hoje vejo o céu borrado, um laranja que atravessa o azul petróleo, violento e lindo. O que sofri naquele dia não foi nada. Não será nada. Eu sei voltar ao escuro e à claridade num espaço de tempo quase imperceptível. Sinto-me crescendo, estranhamente. Ouço “Back to Black” e imagino que não é para mim que a Amy canta. Não, baby, não mesmo. Hoje o dia foi leve e sorridente. So Who? Who is going back to Black? Eu prefiro pensar nas lindas e vibrantes flores que vi no jardim ali ao lado.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

da convicção e da desistência

eu dizia era do tempo:
que corria ao lado dele lá
e você nem percebia o alento de cá

eu reclamava era do mundo
o vendedor de intrigas
ali além, acima do curador de feridas

fui eu que comprei a minha vida
fui eu que escolhi estar perdida
no meio das tulipas e bebidas

eu exigi da moça uma atriz
eu quis pintar de anis
fui eu que estraguei tudo
e foi por pouco, foi por tão pouco
foi por um triz.

sábado, 2 de maio de 2009

índigo: as desiguais.

Éramos o tipo de canto e encantadoras. Foram poucas as pessoas que não levamos no papo; carisma, fácil de ser criado. O resto deixamos estar. Esperávamos que os outros cansassem com o tempo...
não cansaram e continuaram com os sorrisos assustadores, as histórias de conquistas, os copos erguidos orgulhosamente.
Aquilo nos entediou, bastava nos olhar para saber que éramos diferentes.
Apesar disso, eu ainda não entendo o que nos faz ter uma alma que reclama a todo instante, que vê defeitos e alegrias além do que os outros normalmente enxergam... é algo difícil de explicar.

Dulce Pontes - Canção do Mar