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terça-feira, 8 de julho de 2014

incolor ou the flying dream


Essencialmente, representava tudo que eu não precisava ter e ilogicamente tinha. Eram as olheiras pela manhã, o torpor diurno, os ápices de euforia e a posterior depressão visceral. Os dias contados e os que sequer notei passar, tudo arrastado e arremessado violentamente em algum lugar que nunca visitarei. Eu via minha vida toda passar ali, borrada, tingida com as cores que eu nunca gostei. Nada era parecido com o que eu esperava, nada era nem de longe a melhor parte da minha vida que pensei conseguir naquele instante, aquele instante. Quando as memórias ou as idealizações cessam e percebe que era aquele quadro que perseguia por toda a existência, como se não houvesse dia antes ou depois daquele momento. Como se todas as demais pessoas fossem desimportantes e dispensáveis. Analiticamente percebo que só eu fui dispensável a mim, foi muita perda por um rastro tão irreal.

imagem: richard wilkinson - the flying dream

sábado, 2 de fevereiro de 2013

sobre ilhas e joaninhas

Nasceu ilha, bastava-se.
A primeira lembrança que tem é de um pé de anis habitado por pequeninas joaninhas. Lembra da mãozinha estendida e do pensamento de tocá-las, pero foi retesado pela ideia de que não devia tirar-lhes o prazer daquele instante.
Como ilha que é, foi visitada por muitos náufragos; eles chegavam buscando terra firme e com o anseio recorrente de voltar aos seus continentes. Sem se encontrarem, faziam dali seu porto seguro, aprendiam a amar seus subsídios parcos, juravam a si mesmos que viveriam ali para sempre, felizes. Até avistarem um barco e outro e, por fim, um que os levasse de volta com um contentamento mal escondido que lhe rachava o terreno.
Mas não se opunha, eram como as joaninhas, deviam seguir a vida. E assim foi, assim é. Ela é uma ilhota, a qual não ensinaram que é proibido querer ser um continente habitado, com pessoas enraizadas: joaninhas que pousam em seu dedo, sem que ela tenha que cessar o cotidiano de alguém.

Bônus:

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

o óbvio

desaprendi a arte da despedida, livrar-me das suas discussões é deixar uma grande parte dos meus dias sem uma terra certa, sem ter onde repousar os medos. e o que mais poderia ser dito ou reapresentado? o que mais não foi redito tantas vezes de tantas formas quanto poderíamos inventar do incompreensível? a compreensão é tão certa e fácil que assusta. não é que eu não queira você, sabe. é que eu não posso me querer ao seu lado. e eu quero. então, é isso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

fixação

Esvai-se algo todas as vezes que engano.
Sei que não enganaria seus olhos.

Engana-me.
Diz que volta.
Sei que não, mas espero.
Talvez me agrade esperar.

Derrelição é amor, o único que entendo:
abandona-me todos os dias, porque um só já não me basta.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector

Clarice, boa e clichê, como me tem parecido ser tudo:

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar..."

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Lei do retorno.


Uma tentativa de assalto,
uma ameaça no trabalho
e um sonho com ex.

Ok. Já paguei os meus pecados...
O que mais poderia me desejar de mau?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

resoluções

ponto vírgula ponto ponto vírgula.
ponto final.


Então vamos à beleza e à intensidade:
Sentia náuseas por te imaginar em outros braços. Hoje vejo o céu borrado, um laranja que atravessa o azul petróleo, violento e lindo. O que sofri naquele dia não foi nada. Não será nada. Eu sei voltar ao escuro e à claridade num espaço de tempo quase imperceptível. Sinto-me crescendo, estranhamente. Ouço “Back to Black” e imagino que não é para mim que a Amy canta. Não, baby, não mesmo. Hoje o dia foi leve e sorridente. So Who? Who is going back to Black? Eu prefiro pensar nas lindas e vibrantes flores que vi no jardim ali ao lado.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

cores e aquarelas


É uma junção de tantas outras. A cor resultante? É essa, não sei dizer o nome, nem sequer de quais surgiu. É daquele tipo que você sabe que existe, mas os outros nunca sabem qual é. Ninguém acha que é a mesma cor, parece daltonismo. Vez ou outra, chegam perto e pensa que finalmente vão chegar a um consenso, mas logo se decepciona e continua sendo uma cor particular. Não que haja defeito na singularidade que ela implica, não mesmo. Não se torna incômodo a ponto de também se tornar insuportável. Provavelmente, incomoda mais a necessidade de tornar nitidamente certo. Perturba-me, em vários momentos, que não sei explicar o que se passa e o que vejo. No começo a mistura foi interessante, necessária. Só quando não tinha controle do resultado é que me pareceu assustador. Não dá pra separar. A cor que me veio é bonita, mas talvez preferisse vermelho ou algo mais simples de mostrar.

---------x---------

Não classificaria como ciúmes o sentimento que me toma o peito todas as vezes que te imagino em outros braços. Talvez até seja, mas prefiro acreditar que a nostalgia e a saudade me incomodam bem mais do que a idéia de um sentimento tão comum. Já falei sobre o vermelho, não gosto das cores mais fáceis. Seria fácil demais dizer que é o preto que me escurece as vistas, prefiro lilás, é o lilás que me insulta o ritmo das batidas. Tenho tentado manter o equilíbrio e esquecer a falta que me faz não ver o teu sorriso. Tenho tentado esquecer-me de como era bom me aconchegar no teu corpo, te perceber tão maior e tão protetor. Não poderia ser ciúmes o que me incomoda tanto, prefiro que seja lilás.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

terra do sol



Por muito tempo estive cavando um poço sem fundo, movia-me pela esperança de que a qualquer instante, quando menos esperasse, alcançaria a Terra do Sol. Não alcancei e deparei-me com uma escuridão sem fim, com mãos sofridas e um caminho sem volta.