sábado, 9 de fevereiro de 2013

c'est fini.

Eu detesto
a supressão de letras,
a distorção dos sonhos,
a covardia ensaiada.

A arte de detestar,
eu detesto
e domino.
Finito.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

sobre ilhas e joaninhas

Nasceu ilha, bastava-se.
A primeira lembrança que tem é de um pé de anis habitado por pequeninas joaninhas. Lembra da mãozinha estendida e do pensamento de tocá-las, pero foi retesado pela ideia de que não devia tirar-lhes o prazer daquele instante.
Como ilha que é, foi visitada por muitos náufragos; eles chegavam buscando terra firme e com o anseio recorrente de voltar aos seus continentes. Sem se encontrarem, faziam dali seu porto seguro, aprendiam a amar seus subsídios parcos, juravam a si mesmos que viveriam ali para sempre, felizes. Até avistarem um barco e outro e, por fim, um que os levasse de volta com um contentamento mal escondido que lhe rachava o terreno.
Mas não se opunha, eram como as joaninhas, deviam seguir a vida. E assim foi, assim é. Ela é uma ilhota, a qual não ensinaram que é proibido querer ser um continente habitado, com pessoas enraizadas: joaninhas que pousam em seu dedo, sem que ela tenha que cessar o cotidiano de alguém.

Bônus:

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

é.

Sou incompatível com normalidade. Já a loucura, tenho vontade de por no colo e conversar.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

a romântica sra. h


Trechos de Hilda Hilst do livro Cantares.










III
Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor.
...

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

IV
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
...
Isso sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Nunca Mais.

V
O Nunca Mais é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes.
De perpetuar a duração.

VII
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.

domingo, 25 de novembro de 2012

levemente doce.

Desculpa por ter deitado tantos sentimentos, de uma vez só na sua cama, sem perguntar antes se poderia me despir tanto ou mesmo olhar a sua nudez de um modo já tão próprio. É tão fácil me aconchegar ao seu lado, deitar sua cabeça no meu ombro e despejar os textos, assim, sem ensaio algum.
Se eu não falasse tudo naquele instante, correria o risco de não conseguir outra chance e as perdas não podem ser impostas a amores como o nosso; que não se estranham entre paredes novas e se conhecem com a intensidade de outros dias que não viveram.
Não queria sumir sem que soubesse da sensação de pertencimento àquele quarto... seria errado me cercar de tanta naturalidade? Tenho medo de que minhas sombras tenham se desprendido de mim e se posto a morar na sua sala ou que meu cheiro tenho se dividido para dormir mais vezes ao seu lado. Talvez alguma ainda esteja na varanda, olhando a cidade, e se frustre por não poder exigir sua atenção com puxões enérgicos ou abraços desajeitados.
Nem precisaria de jeito, o encaixe dos nossos gênios perdoam as pequenas falhas. Há esse entendimento, as conversas mudas, as concordâncias implícitas, a não-necessidade de dizer que, talvez, talvez, talvez, isso durasse tempo bastante para derrubar as barreiras que tanto idealizamos, que talvez, nem demorasse tanto assim.
Também ainda verei sua sombra por aqui e eu sentindo falta de algo que nunca tivemos. Não é nossa culpa, não teve culpa, nós sorrimos e falamos sem ver o tempo passar.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

o óbvio

desaprendi a arte da despedida, livrar-me das suas discussões é deixar uma grande parte dos meus dias sem uma terra certa, sem ter onde repousar os medos. e o que mais poderia ser dito ou reapresentado? o que mais não foi redito tantas vezes de tantas formas quanto poderíamos inventar do incompreensível? a compreensão é tão certa e fácil que assusta. não é que eu não queira você, sabe. é que eu não posso me querer ao seu lado. e eu quero. então, é isso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

fixação

Esvai-se algo todas as vezes que engano.
Sei que não enganaria seus olhos.

Engana-me.
Diz que volta.
Sei que não, mas espero.
Talvez me agrade esperar.

Derrelição é amor, o único que entendo:
abandona-me todos os dias, porque um só já não me basta.