sexta-feira, 15 de agosto de 2008

le temps d'attente


Ao pousar o cigarro nos lábios, automaticamente analisou sua vida. Assim, percebeu assustada que duvidava de boa parte das suas aventuras, pois, naquele instante, as via como meios e não fins, eram apenas uma passagem para algo mais importante. Não. Não estava ali o ápice das suas vivências. Havia algo mais que queria alcançar. Duvidou das histórias que contara, das emoções que pensara ter vivido. Seria tudo tão intenso como dissera aos outros? Dessa análise, as lembranças emergiam: mas pareciam fake, a vida de outrem. Formou-se um labirinto, cheio de faunos ilusórios, porque em 3 segundos se perdera e já pensava nem ter vivido aquelas cenas, duvidava dos cenários: eram mesmo daquela forma ou foram inventados, vistos em filmes? Via tantas pessoas passando, envoltas em conversas, sorrisos, confusões. Do que tanto falavam e por que sorriam tanto? E aquelas vidas que pensava conhecer, aqueles instantes, os beijos, as catarses, os êxtases. Onde foi parar o sentido disso tudo? Quem viveu? O mundo parece mudo, silencioso, girando em torno de outra vida, não a sua. O que procurava estava além daquilo tudo, esperando ser descoberto como por acidente. E agora, mais que nunca, a frase martelava: “vivia em angústia e espera daquilo que não via”. Sabia que ainda não havia encontrado aquele sentido.

13 comentários:

Geraldo Filho disse...

Ingrid, obrigado pelo comentário...
aproveitando esse poema é bem a cara desse seu texto

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro.
(Embora a manhã já estivesse avançada).Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da Noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei.
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

e. disse...

me disseram mesmo que pensar, às vezes, tira a graça dos momentos. ainda bem que na hora em que a vida está acontecendo eu não consigo pensar, acho que é isso que salva. depois, fico pensando se tudo foi tão intenso mesmo, fico pensando no que realmente vivi e o que editei pra ter vivido (mais feliz).

hilda hilst é ótima, né? outra coisa, temos clarice lispector, como essencial, em comum.

tudo bem com você?

e. disse...

(tenho compulsão por vírgula, não estranhe a situação. deve ser culpa da profissão)

e. disse...

é, tô na pendenga da prova da ordem ainda. advogar, apesar de apaixonante, não é minha área. enfim, eu queria era abrir um café, sair em turnê com as bandas favoritas, escrever um livro e ter um filho do jude law.

e você?

daniel moura disse...

Ingrid parabéns pelo seu trabalho. Muito bom ver pessoas teclando para o bem. Gostei muito do poema.

O Bibliotecário disse...

Talentosíssima!

Parabéns.

La! disse...

Rola num cenário meio guillermo Del Toro esse texto ein?
com direito à faunos e tudo hahahaha
adorei
; *

Jamila disse...

eu te quero bem...
:*

Vivi Bastos disse...

Você tem um talento promissor e um senso de palavra que poucos detêm. Eu adorei e retornarei mais vezes.
Ah, obrigada por visitar o Incubadora Literária e comentar o meu texto.

Beijos
Vivi

http://imaginarviver.blogspot.com/

Veneno Antimonotonia disse...

Uau !

Acho que é esquiva. ^^
Belos textos, lindas imagens.
E a foto? linda linda.

Um beijo, srta.

Vinícius disse...

Sempre tive algo comigo como: sentar, fumar, ter sido inconsequente e lembrar, de peito nu, de tudo.

As vezes falta um tudo, ou mesmo o cigarro, mas aí alguém escreve algo assim. Muito bom.

Ed Marciano disse...

queria poder me ver de fora nessas horas... tipo me analisando.
sera que isso aconteceu mesmo? é o que sintetiza pra mim esse texto.
gostei muito moça.

Tatha Fernandes disse...

Gostei muito do seu blog e especialmente deste texto!