segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

e a última ficha caiu.


Odeio a forma em que
a perfeição foi lançada
e posta como recompensa
de algo que sabia não merecer.

A forma como nos
completávamos
as palavras não ditas
que nunca precisariam ser.

A perda inevitável
e a sensação de nunca
ter realmente ganho.

E o lado vazio da cama
que vai continuar tendo
um dono sutil e aparente.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

antes do tédio, depois de bukowski

Falávamos de lirismo e nos fodíamos pelas costas. As bocetas que comemos não valiam metade das palavras que nos oferecemos. Nem posso dizer que houve traição, o que nos traiu mesmo foram as evidências, não se pode contar segredos de cama!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

conclusões.

realmente invejo os pobres de espírito, que sabem sem querer saber, que o vazio é bem pior que a ilusão.

uma das imagens mais bonitas da semana foi a fumaça do cigarro se dissipando na chuva da Normandia.

odeio fumar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

frente e verso

I - A renúncia ou o enlouquecimento.

Ele acha que amor é perdição. Não acha a vida extraordinária há um bom tempo, talvez por isso crie fugas. Gosta de imaginar que a qualquer momento ela vai descobrir que o actual namorado é apenas uma paixão de verão, e com essa consciência súbita, perceberá que foi um erro largá-lo, e voltará para ele, para o que era antes.

Depois imagina que mesmo que ela voltasse, não deveria aceitá-la assim, não depois do que fez a ele. Então pensa que deveria ser mais homem, ela merecia ao menos um tapa bem dado... mas tem certeza de que não conseguiria bater, nem mesmo um tapa suave: acha uma covardia. Seria corajoso comprar uma arma, cheirar 30 gramas de pó e sair em busca do actual namorado da ex-namorada, seria corajoso dar uns 5 tiros no desgraçado.

Apesar da vontade, não se imagina sendo preso e cumprindo pena, não nasceu pra essas coisas. Uma doença fatal seria perfeita, câncer, esclerose múltipla, qualquer coisa, mas tinha de ser uma morte rápida, mas não tão rápida, ela tinha que ter tempo de ver o que tinha feito a ele. Ela tinha que sofrer por ter feito o que fez com o amor dos dois. Ele estava perdido e sabia disso. Sua vida ainda girava em torno de um amor que ela fazia questão de não lembrar, era um satélite indesejado.


II - A crueldade ou a Libertação.

Ela sabia que o esquecimento é uma dádiva e desde que se envolvera com o namorado de agora, fazia questão de esquecer aquele outro.
Não era por maldade, crueldade, sadismo e nenhum dos outros substantivos que ele gostava de frisar quando falava de como terminaram a relação. Era por isso que deveria esquecer. Não podia carregar eternamente a culpa por um amor que não dera certo.
Eles tentaram, eles se amaram, mas com o tempo aquilo sumiu, ninguém era mais o mesmo. Com o tempo a relação se tornou insuportável e não entendia como ele nunca enxergou isso, como ele insistia. Evitou os amigos comuns, os lugares que iam, as lembranças comuns. Evitou pensar nele como quem evita a dor. Estava apenas buscando um pouco de sanidade no meio do caos. Estava tentando ter uma outra vida. Então com o tempo, a lembrança dele passou de um fantasma desagradável a uma reminiscência suave de alguém distante e nesse tempo já conseguia falar dele novamente, porque ali já não lembrava da culpa.
Ela sabia que o esquecimento era uma dádiva e que não seria o Sol de um amor que não queria.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

pois é...

E o Rio de Janeiro continua... um caos!
06/04/2010

Será que consigo voltar para casa?! Raramente uso esse blog com o intuito de "oi, gente! ontem tomei sorvete".

Mas hoje realmente merece um relato. Ontem às 18h24 peguei um táxi da Urca em direção à Tijuca. Normalmente levaria uns 20 minutos, talvez 30... ok! Mas não... 2 horas e meia na porra de um táxi, momentos de terror com pivetes andando entre os carros procurando quem assaltar, para não chegar a sequer metade do caminho.

Desci do táxi, querendo comer o taxista com farinha por causa dos 50 reais que ele me arrancou pra NADA! e caminhei em direção ao metrô, mais 300 metros andando debaixo de chuva, atravessando enxurrada, e eis: um fila quilométrica para comprar o bilhete.

Comprei, o Fernando me buscou na estação, voltamos a pé e aí foi a melhor parte. Eu me senti num daqueles filmes hollywoodianos... pessoas andando no meio dos carros, os motoristas fora dos carros xingando o mundo, o vento, a chuva, a mãe... a água carregando tudo, gravetos de árvores pelo chão.

Enfim, um caos... o Rio de Janeiro continua um caos e eu tive que remarcar meu vôo pra amanhã, porque os taxistas se recusam a ir ao aerporto.

Morri.

PS: ah, a foto é da rua que fica aqui do lado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

la coïncidence.

A primeira coisa que fiz foi seguir seus passos com o olhar.

Queria aprender como andava, para onde e por quê.

Estava consciente da barreira que se transpõe quando duas pessoas, estranhas à vida uma da outra, se aproximam. Porque a simples conversa muda um mundo.

Antes nunca havíamos nos falado e eu sabia que queria essa conversa há muito tempo, mas permanecia inerte e sisuda. Era minha forma de fingir que aquele momento não me era necessário, e hoje, estou pronta para assumir que era, que a inércia representava a espera do ponto certo, insanamente aquele era o instante em que a barreira cedia.

E foi assim que ignorei os sons ao redor e milhares de pessoas. Foi assim que repousei ao seu redor e comecei um diálogo insólito do qual lembro vagamente de uma ou outra palavra dita. Mas o que gravei com perfeição foi o sorriso, ainda enxergo o momento em que levantou a cabeça e sorriu para mim. Com uma certeza absurda, posso dizer que depois disso o mundo já havia mudado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

you might choose: fears or bricks?

O telhado às vezes está perto demais, sequer é preciso uma queda para haver a compressão. Aquele espaço tão amplo e aconchegante que me fez acreditar completamente no conforto que aqueles braços me ofertavam, aquilo era o meu único porto seguro. Todas as vilanias do mundo pareciam incapazes de atravessar aquelas portas. Lá era possível ver pés descalços atravessando saguões, rodopiando, enquanto alguém entoava alguma valsa. Era possível dançar sem dança, rir sem motivo, não havia preocupações a ter. O ar era leve e fresco, as pessoas felizes e completas. Os abalos existiam, mas não assustavam nenhum habitante.

Todos nós imaginamos que aquele mundo existiria para sempre, por isso não havia sequer o medo de que o tempo passasse e houvesse uma devastação a qualquer momento. Isso era aparentemente impossível: não se destrói o intocável. Nada nem ninguém atravessaria aquelas portas e janelas. Então houve o pior, algo tão inimaginável que até agora me perturba o acontecimento deste fato: nossa fortaleza roeu por dentro, as suas estruturas estavam comprometidas desde o início da construção. É impossível culpar alguém por isso, nem mesmo o destino poderia ser responsabilizado. A casa agüentou o quanto pôde, mas surgiram as rachaduras, e a queda de um ou outro azulejo, depois os danos se tornaram mais aparentes, o telhado que descia... ou diminuíamos para caber ali, ou saíamos antes de ver o melhor que havíamos tido completamente em ruínas. Fomos cada um para um lugar diferente, andamos perdidos por aí, separados e unidos pela lembrança daquela fortaleza de calma.

sábado, 18 de julho de 2009

clichê

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata.
(Clarice Lispector)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

melhor não dizer.

Dizer te amo e estagnar no resto
é como perder a calma com o vazio
que restou daquela relação decadente,
é como pedir perdão à demência passada.

Eu fui o que quis porque quis
e não deveria me explicar assim
de forma tão desnecessária e dolorosa
afinal já lhe entreguei o raio-x completo.

E o que mais espera? que eu minta?
Eu quero partir de súbito e pra longe
e fugir da insistência burra que me impõe,
que me impunha. Eu quero é ver as ondas.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

les jours tristes

Eu penso sobre quem exigia perfeição.

Errar e admitir erros era a minha especialidade.
Eu sou tão errada quanto sempre pude ser: minha patologia.
Mas sempre me redimi em perdões claros e explicativos.

Eu me pergunto sobre qual era a sua especialidade.

resoluções

ponto vírgula ponto ponto vírgula.
ponto final.


Então vamos à beleza e à intensidade:
Sentia náuseas por te imaginar em outros braços. Hoje vejo o céu borrado, um laranja que atravessa o azul petróleo, violento e lindo. O que sofri naquele dia não foi nada. Não será nada. Eu sei voltar ao escuro e à claridade num espaço de tempo quase imperceptível. Sinto-me crescendo, estranhamente. Ouço “Back to Black” e imagino que não é para mim que a Amy canta. Não, baby, não mesmo. Hoje o dia foi leve e sorridente. So Who? Who is going back to Black? Eu prefiro pensar nas lindas e vibrantes flores que vi no jardim ali ao lado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

do indescritível

1. Os instantes são simples. Esse excesso de simplicidade em diversos momentos toma-me de angústia e de uma reviravolta física traduzida numa náusea constante. Essa limitação ao olhar o papel e não conseguir dizer mesmo com uma exatidão mínima o que deveria ser dito e nem mesmo fazer entender os sentidos, isto provoca angústia e a náusea, claro.

2. Seria exagerado classificar o que me ataca de demência? Porque sofro dessa deficiência racional e não enxergo nada que esteja a ponto de contê-la. É um cansaço de mim que transmito às outras pessoas, e quando me dou conta disso, a existência da demência me é dolorida e indiferente.

3. Gosto de chutar pedras e dizer-lhes que está tudo bem. Mesmo com a ausência das palavras que deveriam me aparecer. Digo-lhes da angústia e da náusea porque gostaria de dizer-lhes do resto que não se mostra em público, o resto não gosta da luz, nem dos palcos.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

da convicção e da desistência

eu dizia era do tempo:
que corria ao lado dele lá
e você nem percebia o alento de cá

eu reclamava era do mundo
o vendedor de intrigas
ali além, acima do curador de feridas

fui eu que comprei a minha vida
fui eu que escolhi estar perdida
no meio das tulipas e bebidas

eu exigi da moça uma atriz
eu quis pintar de anis
fui eu que estraguei tudo
e foi por pouco, foi por tão pouco
foi por um triz.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

ab initio

A infância era uma época relativamente fácil, mas bastante conflituosa. Era incompreensível em diversos momentos, agitada por vezes, e na grande maioria, extremamente solitária. Gosto de pensar na infância com um limite de até 6 anos. Depois disso já havia uma consciência quase sociável e uma vida ocupada por diversos personagens. Tão longe do mundo de fantasias que costumava visitar nos anos anteriores.

Era interessante cuidar das formigas, pensar na vida que os adultos levavam e no papel que ocupava em relação àquilo tudo. Lembro de crises existenciais de uma menininha curiosa e inconformada. Deuses, a vida era tão limitada, e eu queria tão mais. Então assistia TV, passeava pelo quarteirão... lia livros e pensava sobre eles: a história de um papagaio de pirata e de uma menininha que namorava no portão, eu não me sentia criança.

Isso me acompanha desde então, uma alma velha num corpo jovem que em diversos momentos me seduz, mas no fim a alma sempre reclama.

ps: fico imaginando como a babá deixava uma criança de 5 anos passear sozinha pelo quarteirão.
ps2: quem disse que não temos lembranças antes dos 5 anos?!
ps3: até que ponto nossa infância determina o adulto que nos tornamos?
ps4: gosto de post scriptum.
ela queria era parar de pensar,
parar no tempo,
parar de querer,
parar em casa,
parar de qualquer coisa.

"Eu, você, e todos os encontros casuais

os ais e os hão de ser"

Marcelo Camelo - Tudo Passa

sábado, 16 de maio de 2009

plus loin de ta rue - nilda fernández

pour pouvoir me tenir plus loin de ta rue
je m'inventerai des circonstances
pour ne pas te mentir, je ne te vois plus
c'est une question de bienséance

mon sentiment se perd au fond de la mer
et je pense à ton existence
mon sentiment se fond et je tourne en rond
et je réclame ton indulgence

le mond est en délire et moi je me tire
c'est une façon d'être en avance
le monde est en failite et moi je te quitte
et je déclare mon innocence

viento y marea bautizan la ciudad
y es una pena que no te vea más


-------x--------

Para poder me manter mais longe da sua rua
eu me inventarei circunstâncias
para não mais te mentir, eu não te vejo mais
é uma questão de dignidade

Meu sentimento se perde no fundo do mar
e eu penso na tua existência
meu sentimento se derrete e eu retorno
e suplico sua indulgência

O mundo é uma ilusão e eu me retiro
é uma forma de estar à frente
o mundo é um fracasso e lhe deixo
e declaro a minha inocência.


sábado, 2 de maio de 2009

índigo: as desiguais.

Éramos o tipo de canto e encantadoras. Foram poucas as pessoas que não levamos no papo; carisma, fácil de ser criado. O resto deixamos estar. Esperávamos que os outros cansassem com o tempo...
não cansaram e continuaram com os sorrisos assustadores, as histórias de conquistas, os copos erguidos orgulhosamente.
Aquilo nos entediou, bastava nos olhar para saber que éramos diferentes.
Apesar disso, eu ainda não entendo o que nos faz ter uma alma que reclama a todo instante, que vê defeitos e alegrias além do que os outros normalmente enxergam... é algo difícil de explicar.

Dulce Pontes - Canção do Mar

quarta-feira, 4 de março de 2009

you won't be coming back

Hoje decidiu passar o dia a lembrar daquele amor gasto que um dia tivera. Achava que ele seria o ápice da existência, aquele amor era igualado à vida e, cada respiração ofegante, ao lado daquela pessoa, era um troféu.

Sorriu ao pensar nisso tudo. Coisa tão pouca. Não era falta de respeito, tampouco despeito, mas aquele amor foi só mais um. Foi um amor de criança, de amadurecimento, tão diferente de tudo que imaginara: não houve casamento, nem fizeram compras juntos no supermercado, nada de filhos ou almoços de família. Simplesmente acabou.

E hoje ela imaginava o desespero que viveu! Deuses! Aquilo era morrer. Dizia a si mesma que não suportaria aquela dor, perdia uma metade sua que nunca lhe seria devolvida... e os sonhos?! A vida gasta, os planos desfeitos, os tantos outros feitos. O que seria dela partida ao meio? Não houve nada – sim, de facto ela não se curou em pouco tempo – entretanto, os anos passaram e viu que continuava completa, aqueles pedaços não foram corroídos, apenas tomaram uma forma nova, mais trabalhada.

Sim, pensando melhor, ela ficou estranhamente mais completa.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

anotações sobre um amor urbano

Anotações sobre uma amor urbano
Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço pra tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nessa janela, já dissemos tudo o que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação, impressão, ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e com a ponta dos meus dedos tocar você, natural que seja assim: O toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.

Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha pra mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi pra saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá dizer: Não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, conhaque, vermelho, os dentes se chocam, leve ruído, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo. Escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos.

Pensei em você. Eram exatamente três da tarde quando pensei em você. Sei porque perdi a cabeça como se você fosse uma tontura dentro dela e olhei o digital no meio da avenida.

Corre, corre. O número do telefone dissolvendo-se em tinta na palma da mão suada. Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoa enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim desses dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa, e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu olho. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas, versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones, máquinas de escrever, ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto, e você me beija e você me aperta, e você me leva para Creta Mikonos, Rodes, Patmos, Delos, e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem. O telefone toca três vezes. Isto é uma gravação deixe seu nome e telefone depois do bip que eu ligo assim que puder, ok?

O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias. Não tomo banho. Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu. E basta fechar os olhos pra naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca. Abismos marinhos, sargaços. Minhas mãos escorrem pelo teu peito, gramados batidos de Sol, poços claros. Alguma coisa então pára, as coisas param. Os automóveis nas ruas, os relógios nas paredes, as pessoas nas casas, as estrelas que não conseguimos ver aqui no fundo da cidade escura. Olho no poço do teu olho escuro, meia noite em ponto. Quero fazer um feitiço pra que nada mais volte a andar. Quero ficar assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse me jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não esta completo sem o outro. Você assopra na minha testa. Sou só poeira, me espalho em grãs invisíveis pelos quatro cantos do quarto.

(...) Fico tosco e você se assusta com minha boca faminta voraz desdentada de moleque mendigo pedindo esmola neste cruzamento aonde viemos dar.

A cidade está louca, você sabe. A cidade está doente, você sabe. A cidade está podre, você sabe. Como gostar limpo de você no meio desse doente podre louco? Urbanóides cortam sempre meu caminho à procura de cigarros, fósforos, sexo, dinheiro, palavras e necessidades obscuras, que não chego a decifrar em seus olhos semafóricos. Tenho pressa, não podemos perder tempo. Como chamar agora a essa meia dúzia de toques aterrorizados pela possibilidade da peste? (Amor, amor certamente não). Como evitaremos que nosso encontro se decomponha, corrompa e apodreça junto com o louco, o doente, o podre? Não evitaremos. Pois a cidade está podre, você sabe. Mas a cidade esta louca, você sabe. Sim a cidade está doente, você sabe. E o vírus caminha em nossas, companheiro.

Fala, fala, fala. Estou muito cansado. Já não identifico nenhuma palavra no que diz. Apenas me deixo embalar pelo ritmo de sua voz, dentro dessa melodia monótona angustiada perplexa repetitiva. Quase três da manhã. Não temos onde ir, nunca tivemos aonde ir. Um nojo, vez em quando me dá asco - nojo é culpa, nojo é moral - você se sente sórdido, baby? - eu tenho medo, eu não quero correr risco - não é mais possível - vamos parar por aqui - quero acordar cedo, fazer cooper no parque, parar de beber, parar de fumar, parar de sentir - estou muito cansado - não faz assim, não diz assim - é muito pouco - não vai dar certo - anormal, eu tenho medo - medo é culpa, medo é moral - não vê que é isso que eles querem que você sinta? Medo, culpa, vergonha - eu aceito, eu me contento com pouco - eu não aceito nada nem me contento com pouco - eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo!

Eu quero risco, não digo. Nem que seja a morte.

Cachorro sem dono, contaminação. Sagüi no ombro, sarna. Até quando esses remendos inventados resistirão à peste que se infiltra pelos rombos do nosso encontro? Como se lutássemos - só nós dois, sós os dois, sóis os dois - contra dois mil anos amontoados de mentiras e misérias, assassinatos e proibições. Dois mil anos de lama, meu amigo. Tantos lixos atapetando as ruas que suportam nossos passos que nunca tiveram aonde ir.

Chega em mim sem medo, toca meu ombro, olha nos meus olhos, como nas canções do rádio. Depois me diz: "-Vamos embora para um lugar limpo. Deixe tudo como esta. Feche as portas, não pague as contas e nem conte a ninguém. Nada mais importa. Agora você me tem, agora eu tenho você. Nada mais importa. O resto? Ah, os restos são restos. E não importam. Mas seus livros, seus discos, quero perguntar, seus versos de rima rica? Mas meus livros, meus discos, meus versos de rima pobre? Não importa, não importa. Largo tudo. Venha comigo pra qualquer outro lugar. Triunfo, Tenerife, Paramaribo, Yokohama. Agora já. Peço e peço e não digo nada, mas peço peço diga, diga já, diga agora, diga assim. Você planeja partir para um país distante, sem mim, de onde muitos anos depois receberei a carta de um desconhecido com nome impronunciável anunciando a sua morte. Foi em Abril, dirá abril e maio. Ou Setembro, Outubro. Os mais cruéis dos meses. Tanto faz, já não importará depois de tanto tempo, numa cidade remota.



Pelas escadarias da avenida deserta, lata de coca-cola largada na porta da igreja, aqui parece que o tempo não passou, quero te mostrar um vitral, esta sacada, aquele balcão como os de Lorca, entremeado de rosas, quero dividir meu olhar, desaprendi de ver sozinho e agora que tudo perdeu a magia, se magia houve, e havia, e não consigo mais ver nenhum anjo em você, pastor, mago, cigano, herói intergaláctico, argonauta, repercante, e agora que vejo apenas um rapaz dentro do qual a morte caminha inexorável, só não sabemos quando o golpe final, mas virá, cabelos tão negros, rosto quase quadrado, quase largo, quase pálido onde já começou a devastação, olhos perdidos, boca de naufrágio vermelho pesado sobre o escuro da barba malfeita, olho tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lento, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, no teu ouvido duro, na tua alma fria, e vou dizendo leve, e vou dizendo longo sem pausa - gosto muito de você de você muito de você.

Tantas mortes, não existem mais dedos nas mãos e nos pés pra contar os que se foram. Viver agora, tarefa dura. De cada dia arrancar das coisas, com as unhas, uma modesta alegria; em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã. Mas o poço não tem fundo, persiste sempre por trás, as cobras no fundo enleadas na lança. Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim, há muito tempo estava acostumado a apenas consumir pessoas como se consome cigarros, a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou. Desculpe, mas foi só mais um engano? E quantos mais ainda restam na palma da minha mão?
Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com esta fome na boca, beber um copo de leite, molhar plantas, jogar fora jornais, tirar o pó de livros, arrumar discos, olhar paredes, ligar desligar a TV, ouvir Mozart para não gritar e procurar teu cheiro outra vez no mais escondido do meu corpo, acender velas, saliva tua de ontem guardada na minha boca, trocar lençóis, fazer a cama, procurar a mancha de esperma nos lençóis usados, agora está feito e foda-se, nada vale a pena, puxar cobertas, cobrir a cabeça, tudo vale a pena se a alma, você sabe, mas a alma existe mesmo? E quem garante? E quem se importa? Apagar a luz e mergulhar de olhos fechados no quente fundo da curva do teu ombro, tanto frio, naufragar outra vez em tua boca, reinventar no escuro do teu corpo de moço homem apertado contra meu corpo de moço homem também, apalpar as virilhas, o pescoço, sem entender, sem conseguir chorar, abandonado, apavorado, mastigando maldições, dúbios indícios, sinistros augúrios, e amanhã não desisto. Te procuro em outro corpo, juro que um dia te encontro

Não temos culpa. Tentei. Tentamos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

moço ausente


Ele tem pouco mais de 21 anos e um nome comum. Morava em um bom lugar desde os 13 anos de idade. Aos 16 anos já trabalhava em uma empresa, onde permaneceu até então, seu primeiro e único trabalho. Era um bom empregado, nada lhe parecia demasiado difícil ou enfadonho. Não era de reclamar do ônibus lotado, nem do pouco tempo que lhe sobrava para jantar antes de ir à faculdade. Não tinha aulas todos os dias e, nesses dias sem aula, costumava ir direto do trabalho para a casa da namorada. Uma garota que conhecera na igreja.

Estavam juntos há anos, eram companheiros inseparáveis, iam a todas as festas juntos, se viam com freqüência, mas já não se beijavam, nem faziam sexo. Tentaram uma vez, os dois haviam bebido por influência de amigos, se arrependeram: passaram uma semana sem se ver, nem se ligaram, no domingo se encontraram na igreja e fingiram que aquilo nunca existiu. Era como se ele tivesse tentado fazer sexo com algo assexuado.

Dormia cedo, acordava cedo e, de novo, estava no trabalho. Em certa manhã, saiu atrasado, e notou que um bar já estava aberto àquela hora. Foi o primeiro cliente do dia, pediu uma dose de uma bebida que não conhecia. Foi a primeira vez que chegou embriagado em casa, a mãe disse que era culpa de má influência, o pai disse que da próxima vez levaria uma surra, a namorada ameaçou terminar o namoro.

Conheceu más influências, levou 3 ou 4 surras, perdeu a namorada e, um dia, depois que o bar fechou, não voltou para casa. Agora fica aí, com seus 21 anos, uma pinga de R$1,99, alguns trocados e uma vida que pensa gostar de ter.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Alô, povo de Mountain View: beijosmeliga!

Quem usa algum tipo de contador de acesso, ou como no meu caso, um monitorador de acessos, já deve ter tido a honra de notar a passagem do ilustre visitante Google, Mountain View, California, United States pelo seu humilde site/blog.

Por que afinal o Google estaria visitando o meu blog? A explicação clássica é que os bots do Google (mecanismos de indexação) procuram por novas postagens para serem adicionadas ao seu sistema de busca. Ok, ok!

Mas e quando não há novas postagens... vai saber. Por isso, tudo que tenho a fazer é dar um "Oi!" bem simpático para a galera do Google: Malta do Google, amo vocês, hein! Não se esqueçam disso!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

selos

Enfim, recebi esse selo da Juh e depois da Talita faz um tempo, mas como não sou muito conhecedora desse lance de selos bloguísticos, só estou a postar agora! :D

As regras são:

1 - Exiba a imagem do selo “Olha Que Blog Maneiro” que vc acabou de ganhar!
2 - Poste o link do blog que te indicou. (muito importante!)
3 - Indique 10 blogs de sua preferência.
4 - Avise seus indicados.
5 - Publique as regras.
6 - Confira se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.
7 - Envie sua foto ou de um(a) amigo(a) para olhaquemaneiro@gmail.com juntamente com os 10 links dos blogs indicados para vericação. Caso os blogs tenham repassado o selo e as regras corretamente, dentro de alguns dias você receberá 1 caricatura em P&B

Segundo as regras tenho que indicar 10 blogs que merecem o selo, bem, acho que como demorei todo mundo já tem, ou melhor, acho que só eu não tinha. Enfim:

x http://incensodepitanga.blogspot.com/
x http://madcoeur.blogspot.com/
x http://atorredoleste.blogspot.com/
x http://annapalindroma.blogspot.com/
x http://edmarciano.blogspot.com/
x http://viciosafogados.blogspot.com/
x http://cadernodefragmentos.blogspot.com/
x http://inatingivel.wordpress.com/
x http://geraldofilho.blogspot.com/
x http://conversa-de-bebado.blogspot.com/

Recebi outros selos também, inclusive ADOREI o que a Juh criou e traz o Calvin & Hobbes! Mas ando numa falta de tempo horrível. Mas Juh, fiquei feliz, muito feliz ;D

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

explicação de pós-vida

Dale Wicks - Trying to fit in painting

Disse que não gostava de fantasias, concordo com as discordâncias: gosto.
Mas não daquela a que me referi, não no sentido em que pensava naquele momento, naquela frase buscava a segurança, o tangível que proporciona uma sensação de vida confortável. Como das pessoas que vivem presas ao concreto, ao sapato, ao ônibus, `à colher no almoço, ao relógio no pulso. Naquela frase quis negar a possibilidade de me render à fantasia, porque sim, sonhar me toma metade do tempo a mais do que a metade que deveria. Estava tentando me encaixar.

"Negar o amor era negar a vida; toda negação do amor gera a morte, não importa que amor, não importa que proibição". (Lya Luft)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

gifts

Imagem: "Personal" by Dale Wicks


Seja
sincera.
paciente.
corajosa, mas não irresponsável, não sempre.
leal às pessoas que acreditam na sua lealdade,
indiferente com as que não merecem sua consideração.
converse quando a situação pedir entendimento.
não grite por preocupação, um abraço tem um efeito melhor.
mostre às pessoas que ama o quanto se importa com elas,
mesmo que nem sempre tenha vontade de fazê-lo.

Máscaras são bem-vindas, mas também são plenamente descartáveis, saiba usá-las.
Não se irrite com pedidos carinhosos.
Não se irrite com os que se preocupam.
Não se irrite quando os outros sofrerem por motivos que não entende, um dia, infelizmente poderá vir a entendê-los.

Procure ser alguém do qual não se envergonhe: ninguém suporta se envergonhar frequentemente das próprias atitudes.

Compre lembranças às pessoas queridas, não se baseie em datas marcadas e presentes caros.

Seja gentil com os mais velhos, educada com estranhos, sorria ao cumprimentar as pessoas.

Seja admirável, sempre que possível.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

chant de la grand-route

2
Toi, route où je m'engage en regardent de part et d'autre, je crois que tu n'est pas tout ce qui est ici,
Je crois que beaucoup de choses invisibles sont aussi ici.

Ici est donnée la profonde leçon de l'acceptation sans préférence, ni reniement,
Le noir avec ses cheveux crépus, le criminel, le malade, l'illettré, aucun d'eux n'est renié;
...
Ils passent, je passe aussi, tout passe, on ne peut interdire le passage à personne,
Il n'est personne qui ne soit accepté, il n'est personne qui ne me soit cher.
(Chant de La Grand-Route - Whitman)

-----x-----

Então, a pedido da Jamila, a tradução do poema do livro "Feuilles d'herbe / Leaves of Grass" de Whitman.

"Canto da grande estrada (rodovia)

Tu, estrada, onde eu me engajo e olho de uma parte a outra, creio que você não é tudo que está aqui,
Creio que várias coisas invisíveis estão aqui também.

Aqui é dada a grande lição da aceitação, sem preferência, nem recusa,
O negro com seu cabelo crespo, o criminoso, o doente, o iletrado, nenhum deles é rejeitado;
...
Eles passam, eu passo também, tudo passa, nós não podemos interditar a passagem de ninguém,
Não há ninguém que não seja aceito, não há ninguém que não me seja querido."

De uma forma um tanto literal, porque o francês é parecidíssimo com o português, e porque acho desnecessário trocar "engajar", "iletrado" por qualquer outro sinônimo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

doces ou travessuras?

     Ela prefere sinceridade e passeios calmos à tarde com pessoas que possam manter conversas amenas ou desesperadas, sem depois utilizarem o que foi dito contra alguém, nem mesmo contra quem mereceria de alguma forma.
     Ela gosta das nuvens curvadas e assustadoras, dos abraços que insiste em rejeitar e das brincadeiras insistentes sobre tudo que finge não querer contar.
     Ela gosta de transparência, nunca teve medo de vidros e de aquários, desde que o reflexo seja uniforme e sincero. As distorções assustam, assim como o mundo ao qual não pertence e as respirações pesadas e cansativas. Prefere a sombra, a grama e os olhares tímidos. Nada de doces ou travessuras. Não é do tipo que gosta de fantasias.

sábado, 10 de janeiro de 2009

vacances

Mas basta que o ar entre nós seja leve
e quente

para que todos os defeitos
e temores

se desfaçam entre as nuvens,
entre as estrelas,

qualquer coisa que esteja
acima das nossas cabeças

e que possa controlá-las
por nós.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

contra-senso


Penso que a sanidade era lançada aos poucos, em cada palavra que lhe dizia, dessa forma, gradualmente todos os dias viraram o mesmo ato de se perder, de brincar de perceber o que podiam fazer, até onde podiam ir, como se os limites estivessem apagados e pudessem pisar neles por pura implicância.

A impressão que tinham era a de que haviam inventado um jogo novo, com regras próprias e onde não se descobriu ainda quem ganha no final, nem mesmo se vai haver um vencedor no final. Era fácil viver assim, bastava sentar-se numa calçada e ouvir beirut para os tempos estarem certos, ou se beijarem por minutos incontáveis, protegidos da chuva e dos olhares, embaixo do guarda-chuva. A verdade é que se perdiam por muito pouco.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

démodé

Ontem passei em frente ao banco em que costumávamos sentar. Houve uma quase dor, arrastada, quase suficiente para me fazer esboçar alguma sensação mais verdadeira. As lembranças de desespero exagerado, de súplicas desmedidas, não pareceram nada além de teatro. Lembro do teu olhar de lado e do meu desespero ao ver que não era para mim que olhava. E as noites em que o céu parecia um risco, com luzes borradas, onde todos sorriam aberto demais.

Era um pandemônio. Estávamos todos contando histórias de aventuras aumentadas, não havia metade de verdade em tudo que dizíamos, todos sabiam, todos contavam. Lembro da música gritada ao fundo, não distinguia um só instrumento, os sons me pareciam um só. Um que preenchia a cabeça, se infiltrava nas imagens.

Naqueles dias não havia distinção entre os sentidos. Os cheiros, sons, imagens, vinham todos do mesmo lugar e para o mesmo lugar. Enxergava a cor daquela música. E tudo era falsamente perfeito só para não assumir que aquele seu olhar de lado não era para mim. E quando me olhava, eu via uma indiferença que rasgava o cenário. Eu queria correr, queria ir embora para um lugar que não sabia onde ficava. Eu tinha impressão de que me odiava e, talvez, naquele momento realmente me odiasse sem sequer saber o porquê. Então te estendia a mão, você a pegava. Por um instante, tudo fazia sentido novamente e os sons, as pessoas, as bebidas, tudo me parecia vazio. Por pouco tempo, imaginava que havia me encontrado, mas aquilo era perdição. Sabia que aquele amor existia de um jeito próprio que estava além do meu controle e do seu. Sabia que iria acabar. Sabia que iria sofrer. Sabia que o jeito em que me perdia na sua boca era a pior coisa que podia me acontecer naqueles dias ilusórios. Eu me fodia ao poucos, consciente e resignada. E hoje, ao ver o banco e não sofrer, parece que me deram um corpo novo, sem as marcas daqueles dias.